O nosso nível de escuta

Imagine-se em conversa com um amigo. Ele está à sua frente e conta-lhe um episódio importante da vida, uma história que o perturba e que precisa digerir para escolher um caminho. Você está lá, sentado em frente, a olhar para todos os gestos e a ouvir todos os tons na voz, preso ao que lhe é contado. Estão os dois num café, com pessoas que conversam à volta, com o ruído do trânsito na rua. O seu amigo continua a falar para si, diz-lhe tudo o que sente e pensa, toca-lhe no braço algumas vezes, como que a pedir que não se desconcentre dele, é importante que o oiça e que o entenda.

Que aconteceria se tivesse conseguido estar presente sem juízos, sem distração e sem querer responder acima do entendimento do que estava a ser pedido?

Você recosta-se na cadeira, já perdeu alguns segundos em divagações interiores, já pensou algumas vezes em responder, já se lembrou do que ainda tem para fazer nesse dia, já espreitou o telemóvel duas vezes e o seu amigo continua ali, a pedir a sua atenção e a sua presença. Você gosta dele, quer ajudá-lo, tem a intenção de o ouvir e ouve, com interrupções mas ouve, olha para ele e acena com a cabeça mesmo que esteja a pensar no email que tem para responder ou na gripe mal curada do filho mais novo. Você continua com o corpo presente e a mente numa intermitência contínua entre as respostas que pensa dar-lhe e os seus próprios assuntos, continua a olhar para ele com a atenção possível, aquém da que o seu amigo lhe pede de cada vez que lhe toca no braço e lhe pergunta se o entende.

Já passaram trinta minutos, você perde o controlo da sua atenção depois dos primeiros dez, deambula em si mesmo com o seu amigo à frente. Volta ao presente e tenta recentrar a atenção no que está a ser dito, é difícil, parece que o seu corpo se impacienta e quer responder depressa para que o seu amigo se sinta ajudado. Começa a ter consciência de que, durante a conversa, perdeu informações, distraiu-se, respondeu a algumas mensagens e fica confuso entre a atenção que devia ter dado e aquela que conseguiu oferecer.

Passados sessenta minutos responde, opina, sorri e oferece disponibilidade para ajudar, não pode interferir na vida dele, mas está ali porque é amigo e porque lhe pediram atenção, escuta, foco. A que nível esteve? De zero a dez, a que nível manteve a atenção no que lhe foi dito? Ouviu para entender ou para responder? Quantas vezes fez julgamentos?

Que aconteceria se tivesse conseguido estar presente sem juízos, sem distração e sem querer responder acima do entendimento do que estava a ser pedido?

Paula Capaz

0 COMMENTS

LEAVE YOUR COMMENT