A realidade é outra coisa

Realidade é perceção. Talvez esta certeza venha da crença de que são as perceções que persistem, não uma realidade para além delas. Os factos estão lá, visíveis e demonstráveis. A rainha Vitória reinou 63 anos e sete meses. A realidade dos britânicos sobre este facto não passa da perceção que cada um teve enquanto ela foi rainha. Facto é que ela reinou, se acreditarmos nos dados históricos, e são muitas as “realidades” que se constroem em torno dos factos.

São os factos que balizam a realidade, ou melhor, a nossa realidade enquanto conjunto de perceções.

Como é sabido e estudado, perceção é projeção e isso confirma a minha crença de que a interpretação dos factos traz consigo aquilo que sentimos e pensamos, para não falar de uma história que carregamos e que completa esta mistura complexa.

Por causa desta fusão ou confusão entre os factos e as perceções, muitas vezes ficamos magoados, ou tristes, ou desiludidos ou contentes. Escolher olhar para a realidade como uma perceção nossa e não como um facto é a escolha de um caminho muito mais limpo do que a esparrela em que caímos por não separarmos as duas coisas.

Quando a realidade magoa, não é a realidade que magoa, talvez seja a forma como queríamos que a realidade fosse que nos coloca em posição de lamento, ataque e mágoa. Quando a realidade nos faz rir, não é a realidade que nos faz rir, somos nós que aprendemos a olhar para dentro e para fora com o humor necessário, porque para que alguma coisa nos faça rir é preciso entender que também escolhemos deixar que isso aconteça.

São os factos que balizam a realidade, ou melhor, a nossa realidade enquanto conjunto de perceções. Se a consciência desta separação for nula, é bem capaz de ser difícil viver. A crença de que a nossa realidade, balizada pelos factos, é uma construção consciente de escolhas em função de perceções, é uma crença que nos traz poder pessoal.

O que existe realmente, a qualidade do que é real é o facto de ter havido uma rainha chamada Vitória, o que foi o seu reinado e quem era aquela mulher, são questões que esbarram em perceções diversas e isso não é a realidade em si, é apenas a nossa realidade!

Paula Capaz
Julho 2018

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