Simples e bons ensinamentos

Passei dois dias num mosteiro franciscano, uma experiência magnífica que aconselho vivamente.

Gostei da arquitetura austera, dos quartos simples, da vegetação abundante, das três igrejas locais (a maior, onde se celebram habitualmente os serviços, uma mais pequena, réplica da igreja de Santa Maria de los Angeles, e outra pequenina), das refeições simples, do pequeno-almoço partilhado por grupos de jovens, das irmãs de todo o mundo em retiro, da missa simples e desprovida de superficialidade que me emocionou profundamente, da música do órgão tocado por jovens franciscanos de passagem e a caminho da Terra Santa, dos cânticos entoados pelos padres e madres Franciscanos e visitantes em geral, do recolher obrigatório às 21:30 e da sensação e escuta do silencio tão forte e profundo.

Devemos estar uns com os outros numa profunda comunicação de amizade, umas vezes para ajudar, outras para ouvir, outras para falar de coisas simples e outras ainda só para estar ali ao pé.

Como disse o nosso guia espiritual, «é interessante pensar que locais inóspitos como este, outrora refúgio dos franciscanos, que eram vistos como locais malditos e pouco entendidos, são agora bem-recebidos e até muito procurados pela sociedade».

Tudo muda!

Entre as muitas experiências vivenciadas num tão curto espaço de tempo, vou partilhar as sábias palavras do frei franciscano Ivano que foi o nosso guia numa visita ao convento.

Antes de iniciar a visita, perguntou se sabíamos a diferença entre um eremita e um eremita franciscano. Um eremita é um homem um pouco louco, que vive sozinho, não fala com ninguém, que está isolado do mundo. Um eremita franciscano tem, segundo os ensinamentos de São Francisco, quatro regras na vida:

Há vida para além do trabalho, dedica-te também à tua vida espiritual.
Estás num sítio e depois vais para outro – não te dediques só à tua vida de trabalho, tens de ter tempo para te dedicares à tua vida espiritual. Não estamos a falar de vida mundana a que também temos direito, estamos sim a falar de vida interior, vida espiritual. Sem isso a tua vida é muito pobre.

Chegar a um nível profundo de comunicação.
Segundo São Francisco, os frades devem andar em grupos de pelo menos quatro freis para poderem falar de coisas importantes uns com os outros, terem uma experiência profunda de amizade. O frei Ivano disse que somos demasiado superficiais uns com os outros: o marido com a mulher e vice-versa, os pais com os filhos… Contou que nos mosteiros os freis têm turnos de duas horas para ouvirem em confissão os peregrinos e visitantes. Sobre uma dessas confissões, explicou como ficou profundamente impressionado com uma senhora que tinha perdido uma sobrinha havia pouco tempo. Comentava a senhora com bastante tristeza que não sabiam a profunda tristeza e solidão em que a sobrinha se encontrava. Devemos estar uns com os outros numa profunda comunicação de amizade, umas vezes para ajudar, outras para ouvir, outras para falar de coisas simples e outras ainda só para estar ali ao pé.

Não julgues porque serás julgado. Não julgues porque quase sempre te equivocas. Coloca-te no lugar do outro.
Segundo São Francisco, os frades franciscanos devem andar em grupos de quatro, sendo que dois fazem o papel de mães (procuram comida, abrigo, subsistência) e dois fazem o papel de filhos, dedicando-se à oração. No final de cada semana devem trocar de lugar e cada um deve entrar e colocar-se no lugar do outro.
Mais uma vez, Frei Ivano partilhou uma história muito curiosa: no mosteiro, antes de cada missa começar, as freiras e freis de apoio à celebração procuram entre os visitantes quem se quer oferecer ou voluntariar para ler umas leituras. Um casal ofereceu-se e, quando chegou a hora, o marido iniciou a leitura de forma muito pausada, muito lenta. Frei Ivano pensava porque razão se teria oferecido o homem para ler se lia tão baixinho e tão devagar. Quando chegou a hora da mulher iniciar a leitura o Frei constatou que a mulher lia ainda mais devagar, ainda mais baixo. Um desespero, portanto! Que indignação!
Acabada a missa, o Frei encontrou-se com o casal que tinha efetuado a leitura. Depois de alguns minutos de conversa chegou à conclusão que o casal tinha perdido o único filho, que se tinha suicidado fazia precisamente um ano. Com grande esforço, o casal tinha decidido ir visitar o mosteiro e participar nas leituras. Tudo estava explicado. O esforço e a coragem que tinham sido necessários para chegar até ali.

Recebe o teu irmão, sê acolhedor, quanto mais aberto fores mais portas se abrirão.
Uma das igrejas do mosteiro é uma réplica de outra igreja maior, onde se acolhiam os leigos e hóspedes em geral. O eremita franciscano convive com os leigos e acolhe os hóspedes. Abre-se ao mundo.

Pratique quem quiser, mas não há dúvida que são simples e bons ensinamentos.

Maria João Martins

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